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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Centenário - Padre Júlio Vaz, um professor exímio que também foi meu

Padre Júlio Vaz
Pedagogo, escritor e jornalista.

Somos “memória e projeto”.
Sim, registamos os acontecimentos que marcaram a nossa vida.
Há personalidades humanistas que fixamos através do tempo, pois contribuíram para o enriquecimento da nossa caminhada pelos diversos roteiros existenciais.
Falamos da “memória singular e admirável”, e recordamos o P.e Júlio Vaz que foi nosso professor na disciplina de Português e História de Portugal, no Curso de Humanidades, concretizado no Seminário de Nossa Senhora da Conceição, em Braga.
Estávamos no início dos anos cinquenta do século passado.
Surge-nos na sala de aula o nosso professor de Português, e ficamos a conhecer o Senhor P.e Júlio Vaz.
Saúda-nos com palavra amiga de um verdadeiro humanista, ajudando “os meninos do Seminário Menor” a mitigar as saudades da família, da casa da aldeia minhota.
Apreciávamos as aulas, mas ainda, de modo especial, os seus conselhos de padre amigo, abrindo a pouco a pouco, horizontes para uma vida nova que se iniciava.
AULAS E AUTORES CLASSICOS





As lições eram cuidadosas.
Seguindo os livros “Elementos de Composição Literária” e “Seleta Portuguesa Explicada”, ambos da autoria de Abel Guerra (1954), íamos aprendendo a ler bem, analisar os textos e a redigir.
Enfim, escrever com correção.
P.e Júlio Vaz explicava: “A correção consiste em falar e escrever segunda as regras da gramática”. Outra qualidade da linguagem é a clareza: “A clareza deve ser o primeiro cuidado de quem escreve”.
E as aulas iam continuando: “A concisão é aquela justa economia da linguagem que limita o número de palavras ao necessário e suficiente, nem mais nem menos”.
Íamos analisando textos de António Vieira, Bernardes, Antero, Figueiredo, Aquilino Ribeiro, Frei Luís de Sousa, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, Ramalho Ortigão, Correia de Oliveira e outros autores consagrados.

LIÇÕES DE HISTORIA DE PORTUGAL
Já no final no Curso de Humanidades tínhamos a disciplina de História de Portugal.
Era aulas brilhantes.
O P.e Júlio trazia um livro manuscrito, de sua autoria, encadernado. A marcação dos conteúdos a lecionar era feita por uma fita.
Ficávamos fascinados pela sua comunicação e, finda a aula conversávamos.
Recordámos que, mais de que uma vez, dissemos ao Senhor P.e Júlio que devia publicar o livro, pois até estudávamos melhor.
Amavelmente, respondia que tinha que aprofundar mais alguns acontecimentos da História de Portugal.
A sua imagem de pedagogo, amigo e bom conselheiro perduraram.
Através do tempo apreciamos a sua atividade de jornalista no Diário do Minho, de modo especial os relados de viagens e as cronicas sempre atual, intituladas: “Ao fechar da página”.
Ao longo dos anos, cruzamo-nos por várias vezes, e a saudação era sempre de estima, mesmo cordial.


O LIVRO “ACTUALIZAÇÃO”
Em 1965, os ares da primavera do Concilio Vaticano II estendiam – se pelo mundo.
O P.e Júlio Vaz redige o livro “ACTUALIZAÇÃO” respeitante à formação nos seminários.
Ainda hoje há conteúdos e reflexões dessa publicação a merecer interesse.
Assim podemos ler nas páginas 110 e 111:


“A adolescência caracteriza-se, também, por atitudes bruscas e desrespeitosas para com os mais velhos ou pelos responsáveis da sociedade. E a irreverência da idade… Ainda, neste assunto, os seminários de tipo tradicional contentam-se com recomendações de ordem geral, com a defesa intransigente das normas disciplinares, com uma confiança absoluta na vida espiritual.
Esquecem frequentemente, de um elemento humano, aliás indispensável: “o culto das boas maneiras”.
(…)
O autor refere o que o Arcebispo de Reims proferiu na Terceira Sessão Conciliar: “ Era necessário cultivar as virtudes naturais como fator decisivo de diálogo com o mundo”.
Cita ainda D. Vicente Enrique y Tarancon, na data Arcebispo de Oviedo: “Uma doutrina mesmo que seja a mais formosa e mais delicada, a mais divina como é a nossa, encarnada numa pessoa descortês e sem urbanidade, perde cinquenta por cento da sua beleza e do seu encanto”.
Nesse período, surge “O Pacto das Catacumbas” (A Missão dos Pobres na Igreja), que é assumido e divulgado por iniciativa de bispos do Brasil, Colômbia, Argentina, França, e outros países da Europa África, Ásia e América do Norte.
Não podemos omitir a referência a D. Hélder Câmara e a D. António Fragoso pelo seu compromisso evangélico para com as populações mais fragilizadas.
D. Hélder Câmara afirmava: “Ninguém nasceu para ser pobre”.



REGIONALISTA E MELGACENSE
São várias as publicações do P.e Júlio Vaz, e entre as quais registamos a comunicação apresentada ao I Encontro Luso-Galaico realizado em Janeiro de 1985, intitulado “A Gastronomia Melgacense”.
Desfilando a cozinha tradicional de Melgaço, com as suas ementas de dias de festa e de trabalho, refere-se ao apreciado presunto de aroma e paladar único.
Sublinhamos do autor: “Mantém-se o presunto como o rei da gastronomia local: ele é o ingrediente forte e bem apaladado da cozinha melgacense; ele é o ocupante primeiro da escolhida certa do merendeiro nas festas e romarias; ele é o colorido rubi das merendas caseiras a receber as visitas sobre a toalha de linho, nascida no campo da aldeia e herdade de gerações, com o seu corte de circunstância: o chouriço fidalgo, a broa caseira e o vinho, o melhor vinho da casa, ele é o bife sem igual, presunto de Melgaço o amigo fiel, a solução gastronómica sendo oportuna, dádiva singular para os paladares mais exigentes”
(…)
José Augusto Vieira confirma-o com estas palavras: “O presunto, aquele magnífico presunto de Melgaço, cujas deliciosas qualidades te descrevo, leitor amigo, é especialmente curado em Fiães”.
 Recordo-me bem que, no começo dos anos trinta e na missa nova de meu irmão mais velho, P.e Carlos, na Capela de Coração de Jesus da Adedela, Fiães, na qual tomou parte coro e orquestra, composta por músicos vindos do Porto, finda a refeição – fora o clássico jantar melgacense – com respeitosa e expressiva timidez pediram a minha querida mãe, se houvesse sobrado uns nacos de presunto, para ofertar às suas mulheres. “Que nunca comeram presunto igual, disseram.”
Gostosa e generosamente foram atendidas com um obrigado sincero de minha mãe.
É pois necessário, preservar, manter e divulgar a cozinha melgacense”
Finalistas de Teologia – 1964 – Ex. Alunos de P.e Júlio Vaz





DIGNIDADE E SERENIDADE
O P.e Júlio Vaz que faria 100 anos no próximo 21 de Outubro, trajava sempre de cor escura, usava cabeção largo e chapéu.
Quando passava na Avenida Central de Braga, em frente ao Café da Brasileira ou na Arcada, ia cumprimentando as pessoas, tirando o chapéu, caminhando sempre com passo firme.
Um dia, o Prof. Doutor Abílio Lima de Carvalho, da Universidade do Minho, e posteriormente Presidente do Instituto Politécnico de Viana do Castelo comentou: “O P.e Júlio Vaz impressiona por uma personalidade rica e radiante”.
Tão amigo era da sua terra, quer da ribeira ou da montanha melgacense, que em 1996 na comemoração do “DIA DO BRANDEIRO” marcou presença com grande satisfação e amizade, valorizando o acontecimento cultural.
Na celebração do CENTENÁRIO DO PADRE JÚLIO VAZ, pedagogo, escritor e jornalista, de quem guardamos boas memórias, a nossa sentida homenagem.


José Rodrigues Lima
938 583 275


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